Bio

Os cantautores Helena e Pedro, são filhos da mesma raiz e desde sempre que cultivam um caminho musical num ecossistema à base de partilha, simbiose, amor e necessidade de criar. Há uma década que pedem nas luas novas a oportunidade de solidificar tantas descobertas, experiências, vivências e ensaios na garagem forrada a caixas de ovo.... Compositores, músicos e criadores, foi no meio da destruição que iniciam a criação, o processo de gravação e produção, resultando no equilíbrio de seis músicas que muito falam do duo SALOMÉ, mas também do mundo que os rodeia. Vemos um recorte dos irmãos Pedro e Helena, que em 2020 encontram, à semelhança de todo o resto do mundo, uma boa oportunidade para atar pontas soltas, num momento da história em que o tempo deixou de existir e os rostos começaram a desvanecer. É neste regresso a casa e na obrigatoriedade de parar que se revestem do que ali viveram e, com os olhos no agora, dedicam-se a reaver cadernos antigos e analisarem assim o que aconteceu no entretanto.
“Salomé” é o nome da primeira música escrita por Helena, hoje a palavra ganha outros relevos, passando a ter uma interpretação conceptualizada de uma imagem de início, quase expressão indígena de uma tribo, que não se podendo traduzir é expandida e (re)significada a cada vez que é dita, e muito para definir inícios, começos e recomeços. Podemos concordar que é sobre deitarmos para fora um nó, contar uma história para que ela de alguma forma ficar eternizada, não vá a memória falhar. Salomé é desbravar caminho sem saber o que vai ser a nossa vida, quem vai estar na nossa vida, é uma costela de adão na entrada de casa. É a carta XXI Mundo.
O EP “Terra molhada” nasceu, cresceu e será eternizado por entre carvalhos e arbustos, magnólias e tulipas. Essa ligação profunda a casa, em todos os sentidos da palavra, transporta-nos automaticamente para um outono, húmido, nostálgico e cheiroso.
Produzido por Rodolfo Jaca (TRNR) e com Masterização, mistura e Captação de Pedro Freitas e Rodolfo Jaca, o projeto emergente situa-se entre o indie pop e indie folk. Ouvem-se inspirações que desde sempre acompanham Helena e Pedro: Sérgio Godinho, Fausto, Sopa de pedra, Silvia Pérez Cruz, Sade, Linda Martini, etc., mas adentro desta bagageira melódica e tão pessoal, falamos de fragilidade, intimidade e memórias, essas marotas que insistem em sumir e aparecer aleatoriamente. Ao vivo, Salomé faz-se acompanhar por mais dois músicos pombalenses: Rodrigo Siva (bateria) e João Gonçalves (teclado e guitarra). De reconhecer, ainda, o trabalho ao longo deste processo de João Correia (disorderfilms) produtor, realizador e designer e de Eduardo Morato, fotógrafo.
O formato físico de “Terra Molhada” é resultado de uma colaboração com o projeto Álbuns Mudos. Álbuns Mudos, projeto editorial desenvolvido por Frederico Pompeu e Mafalda Lalanda, faz tributo aos booklets dos álbuns de música populares durante as décadas de 1990 e 2000 e, ao mesmo tempo, reconfigura esse objeto considerado os tempos digitais e as novas vias de acesso à produção cultural de artistas e autores de música. Cada álbum mudo, em formato desdobrável e quadrangular, relaciona-se com um projeto musical – sendo Salomé o seu primeiro lançamento – e dá acesso a um plataforma digital com o álbum disponível, assim como outros conteúdos multimédia em atualização pelos músicos. Luís Ferreira é o web designer que colabora neste projeto interartes.
Enfim, todo este processo é acompanhado pela inevitável coragem necessária para que uma carga desta envergadura saia a fora do peito - “Terra Molhada” é o primeiro EP que pretende transportar, a quem o recebe, uma progressão eletrónica de orquestras emprestadas do mundo digital e um passeio entre universos temporais, descalços na Terra Molhada…

Seis temas carregados de passado, da vontade de reviver
trampolim para o futuro,
saudades do que virá.

Texto por: Rodolfo Freitas e Helena Freitas

Lava-me o rosto

Escolheste tocar numa pele, não era a tua
Se foi a gosto, não lhe chames verão
Escolheste o Carmo e a Trindade, a carne crua
Nem a coragem e lealdade o vírus cura
...
Dança-me o corpo, lava-me o rosto e pede perdão
Se houvesse uma razão
Dança-me o corpo, lava-me o rosto
Não foi em vão, quem roubou a razão

Ter o desgosto à porta, a dor a querer entrar
Se o fogo pôs à prova a casa onde morar
Melhor dançar na chuva, em vez de encontrar lar
Se o que arde cura, serei cinza em vez de mar

Dança-me o corpo, lava-me o rosto e pede perdão
Se houvesse uma razão
Dança-me o corpo, lava-me o rosto
Não foi em vão, quem roubou a razão

Que o medo corra

Não tinha nem para um cigarro, andar a ter de olhar para o chão
Foi quando deixei de sentir, o que me deu não foi em vão
Deixar para trás o que faz arder e agora nada faz doer
Pensava que ia ser feliz, ainda não chega de aprendiz
...
Que o medo corra atrás de ti também
Segredo seja terra de ninguém
Que o dia traga o tempo que gastei
E a noite traga a lua que comprei

Depois de trás quem me dá a mão, não vejo bem na confusão
Já fui depois do que um adeus, já fui profeta e virei deus
Não quero mais sentir azul, comprei o preto com razão
Não nego já mudei o mundo não contou foi solidão

Que o medo corra atrás de ti também
Segredo seja terra de ninguém
Que o dia traga o tempo que gastei
E a noite traga a lua que comprei

Que o medo corra atrás de ti também
Que o medo corra atrás de ti também
Que o medo corra atrás de ti também
Que o medo corra atrás de ti também

Apocalipse

de Henrique Salgado 1997

Enquanto o sol arrefece,
Aproveitemos o tempo
Pois nem sempre o que acontece
Muda o sentido do vento
...
Abraçamos de mãos postas
A esperança da redenção
Mas se há vento pelas costas
Mudamos de direção

Espada de ferro temperado
As limalhas no cinzeiro,
Como o vento moderado
Pode atrasar um veleiro

A terra tem duração como embalagem perdida,
O nosso mundo é balão
Ameaçando descida…

Não te detenhas e esquece
O peso desta ameaça,
Enquanto o sol arrefece,
Fica no tempo que passa!

Pretérito Imperfeito

Porque tu que nunca tiveste tempo,
para contar o segredo que afinal era saudade.
Mas diz-me a verdade, quanta saudade me resta,
para voltar ao tempo que faz parte da tua idade.
... É feito conceito que quando me deito
chegas de rosa ao peito para eu me encostar
Nos espinhos da memória que me contam a história,
de quando éramos tudo e só restava sonhar.

Foi então que fiz do chão um avião voamos sem cair.
Se soube a pouco foi porque não deste troco,
Da nota que era o meu sonho a partir.

E foi na estrada dos desejos que pedi boleia para te sentir,
Troquei o sonho por dois beijos, não me deixaste subir
Fico fraco de tanto sonhar e não conseguir dormir,
Desmaio contigo a meu lado, só assim parecia feliz

Foi então que fiz do chão um avião voámos sem cair
Se soube a pouco foi porque não deste troco
Da nota que era o meu sonho a partir

Petricor

Voz da Avó Lúcia

Nada está certo, nada em concreto
Nada me preenche, nada nada nem a mim
Poesia, amor, alma, corpo, pele,
... Nada nada me enche
Mas alguém um dia me disse que nada é toda a gente
Eternamente nada, sem alguém do meu lado
Eu sei brigo comigo, mas sou amigo do meu achar

HAJA

Caminhei não sei por onde
Abracei quem quis
Seja por onde for, seja com quem for
Irei, irei, irei
Errei, irei, irei
... Há um peso em mim
Há um peso que deixei em ti
Há um nós sem ponta
Há um nós nem conta

Que haja amor onde hoje é só ferida
Que haja paz onde ontem sofri
Que esta pele seja amada p’ra ser melhor de mim,
P’ra ser o melhor de mim

Voltei a sentir-me em mim
Voltei a vestir-me de cor
Jasmim
Cantei, chorei, amei,
que bonito assim, bonito assim
Sou feliz assim, feliz assim
que bonito assim, bonito assim

Que haja amor onde hoje é só ferida
Que haja paz onde ontem sofri
Que esta pele seja amada p’ra ser melhor de mim,
P’ra ser o melhor de mim